domingo, 8 de fevereiro de 2015

LIBERTAÇÃO DO PASSADO

Uma mulher foi visitar o seu pai, que era um yogue conhecido e muito respeitado na região sul da Índia antiga. Assim que os dois se encontraram, moça disse:
- Pai, sempre observo como você é respeitado pelas pessoas. Queria ter toda essa tranquilidade que você tem. Como faço para conseguir paz em minha vida? O pai olhou sua filha, ficou feliz pela pergunta e disse: 
- Filha, deixe isso de lado um pouco. A paz é algo ainda distante. Comece, por enquanto, jogando fora algumas coisas em sua casa que você não precisa e que não te trazem boas lembranças. A filha ficou visivelmente contrariada. Não entendia a atitude do pai. Sendo um homem tão sábio, por que dava orientações a todos, mas se negava a ensinar sua própria filha?
A moça retornou ao seu lar e sentiu que, realmente, seria um bom momento de se desfazer de alguns pertences que já não utilizava. Estava mesmo sentindo que sua casa precisava esvaziar-se de algumas tralhas. Primeiro de tudo, resolveu localizar os objetos dos quais não mais necessitava. Pegou antigos presentes usados, roupas velhas, sapatos furados, bijuterias e até algumas cartas de antigos namorados. Conforme ia pegando nas roupas rasgadas, surgiam lembranças dos momentos em que as usou. As cenas iam cruzando sua mente com todas as recordações. Conseguia sentir a emoção dos momentos bons e ruins de quando as usou. Levantou bastante poeira movimentando tudo, tirando do lugar e se jogando fora. Alguns objetos traziam lembranças sentimentais, como o chapéu dado pela sua avó já falecida. Hesitou em joga-lo fora, por ter sido um presente de sua avó, mas como já estava muito velho, resolveu atira-lo no lixo. Não foi nada fácil desapegar-se de certos pertences, em especial aqueles que lembravam momentos bons e ruins. Cada utensílio era localizado, trazia recordações, com cenas, sentimentos e experiências. Parecia regressar no tempo e sentir diversas fases de sua vida como se elas estivessem ocorrendo agora. Pegou também presentes de ex-namorados. Um desses homens ela ainda guardava um sentimento por ele e também um certo apego. Demorou algumas horas, mas a moça pôde revisitar muitas fases diferentes de sua vida, senti-las, chorar, observar o que pensava e como via o mundo em diversas épocas, e finalmente jogar tudo fora. Após toda essa experiência com seu passado, estava se sentindo diferente. Sentiu-se mais tranquila, mais leve e mais livre de tudo. Estava menos carregada e sentia, pela primeira vez em muitos anos, uma paz que a preenchia por inteiro. Alguns dias depois, foi novamente visitar seu pai e contou todo o ocorrido. Disse que estava se sentindo bem melhor após ter arrumado a casa e jogado alguns pertences antigos fora.
O pai virou-se para ela e disse: - Filha, quando você me perguntou como fazia para conseguir paz em sua vida, eu te dei a resposta, e você iniciou esse processo. Desfazendo-se de alguns objetos do passado, você pôde seguir os sete passos da libertação da prisão do passado. - Eu segui? - Perguntou a filha surpresa. – Mas que passos são estes? O pai respondeu:
- O primeiro passo é agir para resolver um problema. No caso, você sentia a intranquilidade, e começou a buscar uma solução para isso. Esse é o primeiro passo. A ação que procura solucionar um sintoma ou problema e entender que precisamos nos libertar disso. Essa é a fase do início da busca.
O segundo passo é localizar a fonte do problema. Em sua casa, você procurou os objetos que teria que jogar fora. Isso equivale, no plano emocional, a buscar o local exato da origem do problema. Onde, por exemplo, começou a minha angústia, a ansiedade, a tristeza, a dor, a doença, etc. Essa é a fase da localização.
O terceiro passo é rever o problema e senti-lo intensamente, experimenta-lo novamente como se ele estivesse ocorrendo agora. Cada pertence que você encontrou, vieram lembranças muito emocionais, você recordou cenas e acontecimentos, sentiu a emoção deste tempo passado e colocou para fora os últimos resquícios desses sentimentos arraigados. Ninguém se liberta de alguma situação não resolvida ou de alguma experiência mal digerida do passado se não entra em contato com seu núcleo e a sente novamente. Essa é a oportunidade de liberar toda a carga retida. Essa é a fase da experiência e do esgotamento das emoções acumuladas.
O QUARTO passo é desapegar-se daquilo. Algumas pessoas relembram o passado, o sentem, mas como ainda continuam apegadas a ele, dando alguma espécie de valor ao objeto de apego, elas permanecem presas. O desapego corresponde ao ato de jogar fora aquele objeto. No momento que você o jogou fora, você consolidou que não precisava mais daquilo e se desfez do que te prendia. No plano interior, o desapego não é exatamente uma ação, mas uma escolha. Essa é a fase do desapego.
O quinto passo é perdoar qualquer mal ou prejuízo que o passado tenha nos causado. Isso implica no perdão de maus tratos, ofensas, agressões, frustrações, etc. Quando você pegou as cartas de ex-namorados, você já estava tranquila interiormente e pôde perdoa-los de qualquer mal que tenham feito a você. Se não tivesse perdoado, ainda estaria apegada a eles de alguma forma. É importante perdoar o algoz, mas também perdoar a nós mesmos por termos errado. O perdão dos próprios erros é fundamental, e aqui cabe lembrar que somos todos imperfeitos e estamos sempre sujeitos a erros. Da mesma forma que erraram conosco, nós também erramos com muitos outros. Por isso, é importante o perdão e o autoperdão. Essa é a fase do perdão.
O sexto passo é fazer uma revisão do passado e tentar entender porque tivemos que experimentar aquilo. Qual o motivo daquele sofrimento, daquela dor, daquela doença, ou de qualquer mal que nos acometeu. Que responsabilidade tivemos em sua produção? Após rever nossa responsabilidade nisso, é importante arrepender-se de qualquer mal feito e também pedir perdão a nós mesmos. Rever o passado nos ajuda a chegar ao sétimo e último passo.
O sétimo passo é o aprendizado final. Toda experiência deve ser transformada em aprendizado. Ela deve trazer um significado para nós, e isso deve servir para evitar erros futuros. O aprendizado é a libertação final do passado, pois ele evita que os erros do passado sejam reeditados em novas formas no futuro. Lembrando sempre que os erros passados que não foram aprendidos podem ser repetidos num futuro próximo ou distante. Portanto, o aprendizado é fundamental, e é o último passo para a libertação do passado e para o encontro com a paz.
Texto de Hugo Lapa