sábado, 14 de março de 2015

Os Dois Ancões




Sentado no limiar dos dias, dois anciãos aguardavam a visita da morte.
Seu tempo estava se esgotando. Ambos haviam nascido na mesma terra, no mesmo ano e em famílias com idêntica condição social.
O primeiro, concluída sua preparação para a vida, escolheu uma companheira.

E foi pai de uma grande prole. Seus netos também contavam-se nos dedos de várias mãos. Sua propriedade e seu patrimônio foram crescendo a partir do zero. E conquanto a ruína e a calamidade tenham assolado sua casa por diversas ocasiões, aquele homem sempre soubera levantar-se. E embora a sombra da dúvida freqüentemente invadisse seu coração, o primeiro dos anciãos procurou a verdade muitas vezes. Mas jamais teve consciência de havê-la encontrado e muito menos de havê-la possuído.


O primeiro ancião chegou à praia da vida com a alma fatigada. Arrasada de tanto cair e pôr-se de pé. Desalentada após os esforços empreendidos com os problemas. Sem saber ao certo se sua vida fora um êxito ou um fracasso. Curvado sob o peso de tudo que desejara aprender e não pelo que já conhecia. Decepcionado, em resumo, porque jamais tivera a Verdade ao alcance de suas mãos.


O segundo ancião ao contrário, teve uma vida tranqüila. Jamais chegou a concluir seus estudos. Mas tampouco preocupou-se especialmente com isto, e deixou-se levar pela inércia da vida. Viveu primeiro dos bens dos pais e, por último dos bens de seus irmãos e amigos. Viveu sozinho. Não aceitou a responsabilidade de uma família nem quis enfrentar os problemas de quem tem filhos. Não quis correr riscos. Tampouco jamais foi visto na linha de frente da aventura ou dos negócios. Sua vida acabou reduzindo-se ao círculo de seus próprios pensamentos e costumes, ambos tão limitados quanto corretos. E também ele chegou ao fim do caminho, sem cansaço nem melancolia. Sem dúvidas especiais. Sem frio nem calor, sem problemas...


Chegando o momento, apresentou-se diante de ambos a face sem traços da morte. O Anjo da morte envolveu o primeiro ancião e convidou-o a entrar na grande nau, já pronta para uma nova viagem. Com o segundo ancião foi diferente, ele foi repelido pelo Anjo. Quando este lhe perguntou o motivo, o mensageiro da luz respondeu: "Para solucionar os problemas do outro lado, é preciso haver aprendido primeiro a resolver os deste". Talvez a evolução pessoal não dependa exclusivamente do passar dos anos...



- J. J. Benitez -

Texto extraído do "Livro dos Sonhos"; J. J. Benitez; Editora Record